Ministério da Cultura Brasil

‘A Barca’ surgiu da interação estética entre dança contemporânea e cavalo-marinho

Por Michelle Assumpção

Cena do espetáculo “A Barca”. Foto: Rebecca Torquato.

O pensamento erudito a serviço da cultura tradicional resume o encontro da bailarina Maria Paula com os mestres de cavalo-marinho da Zona da Mata Norte de Pernambuco Inácio Lucindo (Estrela do Oriente), Luiz Paixão (Boi Brasileiro), Biu Alexandre (Boi Brasileiro) e Nicinha Teles (Estrela Brilhante). Eles protagonizaram na segunda noite do Circuito Interações Estéticas, no Centro de Convenções da UFPE, o espetáculo A Barca. O cenário é simples, belo e inteligente. Longos tecidos estampados colorem e ao mesmo tempo servem de cenário e trocas de cena. A Barca é um espetáculo de cavalo-marinho numa estrutura de dança contemporânea. Estão lá seus personagens: o mestre Ambrósio, o soldado da Gurita, os galantes, o Mateus, a velha. Eles entram em saem num jogo de cena criativo, que mescla diálogos, encenações e danças.

O banco do cavalo-marinho – onde estão os músicos – fica posicionado no centro do espetáculo, do começo ao fim. Nele, além do exímio rabequeiro Mestre Luiz Paixão, está também a brincante Nicinha Teles. Com uma voz aguda e afinada, ela é responsável, além de algumas percussões, pelos cânticos que entrecortam a narrativa. “Para mim o espetáculo deu maior valor ao cavalo-marinho. Através do teatro, as pessoas ficam sabendo o que é a brincadeira e quem são as pessoas que fazem”, diz Nicinha.

O projeto foi construído a partir do edital Prêmio Interações Estéticas, que permitiu a troca de informações entre a contemporânea Maria Paula e os “tradicionais” mestres, definições que não estão nem um pouco encerradas. “Esse é um espetáculo contemporâneo, alinhado a qualquer festival do Brasil”, comemora Maria Paula, que faz questão de frisar as transformações que uma cultura promoveu na outra. “Foram quatro meses de preparação, o que a gente entendia por interação estética era a gente se modificando e modificando eles”, diz a coreógrafa.

Caldeirão cultural

Para Mestre Inácio, a experiência foi uma das mais ricas que já experimentou. Ele define assim: “Cada um veio com sua vivência,

Ensaio do Grupo Grial. Foto: Bruna Monteiro

depois juntou tudo para modificar e transformar em outra história, deu um açoite de levanto porque tudo junto deu a quentura. Foi subindo a pressão e teve coisa pra toda história: loa, toada, trupé, rojão, galope”, conclui. Aos 73 anos, Seu Inácio é aposentado, tem cinco filhos homens, todos na brincadeira do cavalo-marinho. “Tenho um livro em casa, só falta agora ser Patrimônio Vivo do estado”, diz seu Inácio.

O espetáculo A Barca também estará na terceira etapa do Circuito Interações Estéticas, que acontece de 26 a 28 de novembro, em Belo Horizonte (MG). Também já estão fechadas mais duas apresentações em Pernambuco. O Circuito Interações Estéticas é uma promoção da Secretaria de Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Funarte e UFPE, cujo objetivo é fazer circular pelo país iniciativas premiadas pelo prêmio Interações Estéticas, como foi o caso do espetáculo A Barca, resultado do processo de residência artística entre seus participantes.


Participação do Leitor


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